Relatos, memórias e narrativas na construção do imaginário do povo Kaingang: as estampas de Joaquim José de Miranda na conquista dos Campos de Guarapuava

  • Toni Juliano Bandeira Secretaria de Estado da Educação do Paraná, Terra Indígena Rio das Cobras
Palavras-chave: narrativa imagética, povo Kaingang, Joaquim José de Miranda.

Resumo

Nesta pesquisa, analisamos a representação imagética do povo Kaingang no conjunto de trinta e sete estampas produzidas por Joaquim José de Miranda sobre a décima das expedições destinadas a desbravar os chamados “sertões” do Tibagi, no estado do Paraná, expedição esta comandada por Afonso Botelho, no ano de 1771. Nesse sentido, refletimos sobre as formas de resistência indígena ante a invasão de seu território, bem como sobre a ideia do “vazio demográfico”, na qual a existência de grupos indígenas no atual estado do Paraná simplesmente é negada, reproduzindo-se o discurso de que essas terras eram desabitadas, até que os luso-brasileiros ou imigrantes de outros países viessem cultivá-las. Por meio da análise das estampas, podemos dizer que a narrativa imagética de Miranda é um material de grande valor para a história do povo Kaingang, por meio do qual é possível refletir sobre o embate entre os colonizadores e os indígenas nos Campos de Guarapuava, notando-se a inconsistência da tese do “vazio demográfico”, bem como a resistência Kaingang à invasão de seu território.

Biografia do Autor

Toni Juliano Bandeira, Secretaria de Estado da Educação do Paraná, Terra Indígena Rio das Cobras
Graduado em Letras Português/Espanhol pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná - Cascavel (2013) e Mestre em Letras também pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (2016). Atualmente é professor do Quadro Próprio do Magistério da Secretaria de Estado da Educação do Paraná, trabalhando na Terra Indígena Rio das Cobras.

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Publicado
2017-09-01