Etnoarqueologia e processo de territorialização entre os indígenas Wasusu do vale do Rio Guaporé, estado de Mato Grosso, Brasil

  • Rafael Lemos de Souza Universidade Federal de Mato Grosso do Sul Campus do Pantanal
  • Jorge Eremites de Oliveira Universidade Federal de Pelotas Instituto de Ciências Humanas Departamento de Antropologia e Arqueologia http://orcid.org/0000-0001-9148-1054
Palavras-chave: Etnoarqueologia, História Indígena, indígenas Wasusu, processo de territorialização, Vale do Rio Guaporé.

Resumo

Neste artigo os autores analisam criticamente o processo de territorialização vivenciado pelos indígenas Wasusu, um dos povos Nambikwara do vale do Rio Guaporé, no estado brasileiro de Mato Grosso, a partir da segunda metade do século XX. Até os anos 1950, a maior parte da região era quase que exclusivamente habitada por coletivos Nambikwara, cuja população total foi estimada em aproximadamente 20.000 indivíduos. Da década de 1950 à de 1980, terras indígenas foram expropriadas no contexto de uma política oficial destinada ao desenvolvimento econômico do estado e da região brasileira da Amazônia Legal. Esta política teve o objetivo de beneficiar empresas colonizadoras e agentes das elites locais, e foi implementada por meio da apropriação ilegal do território de vários povos nativos, como é o caso dos Wasusu.

Biografia do Autor

Rafael Lemos de Souza, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul Campus do Pantanal
Rafael Lemos de Souza – Doutorando em Arqueologia pelo Museu Nacional, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (MN/UFRJ). Mestrado em Antropologia Sócio-Cultural pela Universidade Federal de Grande Dourados (UFGD). Graduação em Arqueologia pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO). Técnico do Laboratório de Arqueologia do Museu Antropológico da Universidade Federal de Goiás (LabArq-MA/UFG). Sócio efetivo da Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB) e sócio pós-graduando da Associação Brasileira de Antropologia (ABA). Experiência na área de Arqueologia, com ênfase em Etnoarqueologia, Etnologia Indígena, Bioarqueologia, Zooarqueologia, Tecnologia Cerâmica, Arqueologia Histórica, Arqueologia Pré-Colonial, e Arqueologia do Pantanal.
Jorge Eremites de Oliveira, Universidade Federal de Pelotas Instituto de Ciências Humanas Departamento de Antropologia e Arqueologia
Licenciado em História pela UFMS - Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (1991), mestre e doutor em História/Arqueologia pela PUCRS - Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1995, 2002) e concluiu estágio de pós-doutoramento em Antropologia Social pelo Museu Nacional da UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro (2011). De 1996 a 2005 trabalhou como docente no antigo Campus de Dourados da UFMS, a partir do qual foi criada e implantada a UFGD - Universidade Federal da Grande Dourados, onde permaneceu de 2006 a 2012, e atuou nos cursos de graduação em História e em Ciências Sociais, no Programa de Pós-Graduação em História e no Programa de Pós-Graduação em Antropologia. Desde 2013 é docente na UFPel - Universidade Federal de Pelotas, onde atua como docente no curso de graduação em Antropologia e no Programa de Pós-Graduação em Antropologia, ambos articulados nos campos da Antropologia Social e Cultural e da Arqueologia. Na mesma instituição também atua no Programa de Pós-Graduação em Memória Social e Patrimônio Cultural. É bolsista de produtividade em pesquisa, nível 1D, do CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. De dezembro de 2014 a setembro de 2017 respondeu pela Coordenação Adjunta e de setembro de 2017 a março de 2018 esteve à frente da Coordenação da Área de Antropologia e Arqueologia da CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Participou de algumas gestões da SAB - Sociedade de Arqueologia Brasileira (Comissão Fiscal ,1997-1999; Comissão Editorial, 1999-2001; Vice-Presidência, 2005-2007; e Conselho de Ética, 2016-2017), da qual é seu atual presidente (2018-2019). Também é membro do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN (Portaria MinC n. 48, de 18/04/2018). Tem experiências nos campos da Arqueologia, Antropologia Social e História, com ênfase em Etnoarqueologia, Etnologia Indígena e Etno-história, bem como na produção de laudos administrativos e judiciais sobre terras tradicionalmente ocupadas por comunidades indígenas. Desde os anos 1990 acumula experiências em trabalhos com comunidades indígenas, sobretudo entre os Fulni-ô do Santuário dos Pajés, Guarani (Ñandeva), Guató, Kaiowá, Nambikwara (Katitaurlu do vale do Sararé) e Terena, e com algumas comunidades quilombolas nas regiões Centro-Oeste e Sul.

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Publicado
2019-09-03
Seção
Dossiê 2: História Indígena, Etno-história e Indígenas Historiadoras/es: experiências descolonizantes, novas abordagens